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architexts ISSN 1809-6298


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A autora reflete sobre a relação entre espaço público e privado, e qual comportamento que as pessoas apresentam neles. Questiona também a função da cidade e até onde a arquitetura pode vir a interferir nesse contexto


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COSTI, Marilice. A cidade e a alcova: o coletivo na intimidade. Arquitextos, São Paulo, ano 03, n. 036.04, Vitruvius, maio 2003 <http://www.agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.036/684>.

O texto a seguir propõe uma reflexão sobre os espaços coletivo e privado (1). O espaço induz ao comportamento ou o ser humano interfere nos espaços? Barreiras e acessibilidade, até onde a arquitetura pode interferir? Se existiu uma alcova, um espaço íntimo, este ainda existe? E a cidade, qual sua função da cidade: abrigar ou expulsar? Para que os usuários se sintam satisfeitos após a implantação de um projeto arquitetônico, é necessário satisfazer os seus desejos ambientais, suas necessidades de conforto? A vida de um bem arquitetônico dependerá muito dos acertos quando da definição projetual. Mas qual é a relação que o ser humano possui com os espaços? Ele invade o coletivo ou tem seu espaço privado invadido? Neste artigo, propõe-se uma reflexão, apontando relações contraditórias que vem ocorrendo entre o espaço coletivo e o espaço privado. Os dois pólos atuam dialeticamente, interpenetrando-se e perdendo sua distinção?

A alcova e a cidade: territórios

O que quer dizer alcova? Ainda existe um local onde um indivíduo pode ser ele mesmo sem máscaras? E a cidade? Como ela é percebida? Espaços outrora de uso coletivo, ainda podem ser? Qual é a importância do ser humano na arquitetura? Os projetos têm satisfeito às suas necessidades durante toda sua vida? Há acessibilidade ou barreiras? Invasão ou privacidade?

De origem árabe, al-kobba significa esconderijo (2), local onde se busca segurança. Também é o quarto da mulher e por extensão, o quarto de dormir, onde o território individual ou de um grupo familiar é marcado. No século XIX, alcova era o quarto dos prazeres, um espaço muitas vezes sem ventilação, nem iluminação: o ambiente mais privado da casa.

Atualmente, pode-se afirmar que a alcova é um espaço relacionado à territorialidade e ao espaço íntimo e pessoal, onde o acesso não é permitido a qualquer um; ela é importante porque a privacidade é uma necessidade do ser humano desde a concepção. Na gestação, o feto se desenvolve num esconderijo: o útero, seu primeiro ambiente. Quando nasce, novas percepções ambientais serão sentidas pelo bebê. Nos primeiros anos de vida, a criança passa a brincar de esconde-esconde. Aparecer e desaparecer são parte de uma brincadeira comum. Quando ela vai à escola, continua necessitando de um lugar e vai ser no pátio, durante o recreio onde ela organizará o seu pensamento ao brincar de esconde-esconde (3). Neste jogo, continua a estruturar o seu eu. Em casa, o seu quarto é o seu espaço de dormir, de brincar, onde ela se sente protegida: é seu esconderijo, seu abrigo, sua alcova? Uma área privativa é exigida, também, pelo adolescente. Se ele possuir um quarto próprio, ele não invadirá o espaço dos outros. Ao passar por uma revolução física e emocional, prepara-se para a etapa adulta. Vai ser na sua alcova que ele ordenará e reordenará seus pensamentos, planejará suas ações. Se ele tiver aprendido a ter e dividir seu território, vai ter melhores condições de organizar sua vida e de se relacionar com os outros na maturidade. O ser humano precisa ter seu próprio território e este é indispensável para sua saúde física e mental.

Assim como a poesia, que conforme Pierre Jean é a alma inaugurando a forma (4), a cidade pode ser composta de formas inaugurando as almas. A cidade, que deve acolher, possibilitar acessos e suprir necessidades básicas, desperta nos indivíduos sensações muito variadas. Assim como a poesia pode tocar uma pessoa por inteiro, a cidade, por analogia, interfere nas sensações do indivíduo, conquistando-o ou repelindo-o. Pode despertar o deslumbramento, quando a estética salta aos olhos, ou a agressividade, quando encontra barreiras (os congestionamentos que dificultam o trânsito, por exemplo).

Quando o indivíduo não possui estrutura para suportar ambientes que a sua cultura não é capaz de assimilar, tal inadequação poderá ser motivo de desajustes emocionais. É o que pode ser demonstrado nas atitudes típicas dos vândalos. Se forem consideradas as necessidades do(s) indivíduo(s) – e isto precisa ser considerado em um projeto arquitetônico –, os espaços criados serão adequados e transformar-se-ão em lugares, onde o genius loci (5) estará presente. Um projeto que satisfaz os desejos das pessoas, quando concretizado, será mais respeitado por todos. Para conhecer as aspirações da comunidade, são necessários o diálogo e a troca entre os envolvidos no processo. Abrigar ou excluir pode estar no cerne das decisões projetuais, já no partido geral (6). O indivíduo não existe sem a coletividade e vice-versa. O coletivo é impresso na intimidade e a intimidade é expressa no coletivo. Como o ser humano é o motor da cidade, ele é aquilo que mais deve importar ao se fazer arquitetura. É para ele que se projeta ou dever-se-ia projetar. Ao interagir com os ambientes, o indivíduo poderá depredá-los ou protegê-los, porque nem sempre os espaços idealizados pelo arquiteto resultam adequados. Para auxiliar os profissionais, existem as pesquisas nas quais se descobre qual é o desejo dos usuários em relação aos ambientes a serem construídos. Após um tempo de ocupação, pode-se avaliar o grau de satisfação dos usuários para nortear novos projetos. Reconhecer acertos e enganos com o intuito de qualificar os ambientes cada vez mais é um dos objetivos da Avaliação Pós-Ocupação (7). O arquiteto sabe que se o projeto for feito de acordo com as necessidades do cliente e com as técnicas adequadas, a obra permanecerá viva por mais tempo e ela será defendida pelos seus usuários.

As cidades contemporâneas ainda possuem grande capacidade de atrair, seja pelos serviços que proporciona, seja por ser foco cultural, seja pela curiosidade ou pela busca de novas chances. O sujeito interage com ela com menor estresse quando supre suas necessidades de sobrevivência e de prazer. A cidade emite mensagens o tempo todo, não somente no bombardeio publicitário. O seu traçado pode ser simples ou confuso, os serviços podem estar bem ou mal distribuídos (8). Redes elétricas e telefônicas, trânsito, passeios e áreas verdes: elementos urbanos que penetram inicialmente através do sentido da visão e, de forma dinâmica, são percebidos por outros sentidos também (9), especialmente, o sentido do movimento (10). Ao deslocar-se pela cidade, o que o indivíduo percebe nos espaços é armazenado na sua memória. As sensações que ele tem, tanto nos espaços fechados quanto nas áreas urbanas, podem interferir no seu bem-estar. Se os espaços forem amplos, pode haver a sensação de dispersão ou de amplitude, se os espaços forem pequenos podem ser aconchegantes ou darem a sensação de compressão, de fechamento. Quaisquer que forem as áreas urbanas utilizadas, elas são a cidade percebida e sentida pelo homem: a cidade que é levada para casa – para a alcova – quase sempre de forma inconsciente. O espaço pode influenciar seu comportamento? Depende da capacidade de cada um, de lidar com os problemas citadinos: insegurança, trânsito congestionado, poluição sonora e visual, tempo perdido, falta de energia ou de comunicações.

O celular será um grande alívio quando funcionar sem problemas: não faltou bateria, terminou o cartão e a antena alcança. Mas deixará de ser, se ele tocar num momento impróprio, poluindo sonoramente e tirando a concentração e o descanso. Comunicar-se ou não é um ato de livre arbítrio? Cortar comunicações é de foro individual num primeiro momento. Num segundo momento, o corte pode ser dado sem interferência do indivíduo e sim, pelos controladores das redes de comunicação e energia, ou pela falta dela. Dizem que a próxima guerra mundial será da energia, da água e das comunicações.

A percepção do ser humano é também influenciada pela arquitetura, que, quando inadequada, ao invés de favorecer o convívio entre os seres, distancia-os. Áreas escuras e abandonadas, áreas com temperaturas e ventos desconfortáveis, áreas muito barulhentas, áreas inseguras expulsam porque a percepção orienta as pessoas para a busca de segurança e bem-estar. A iluminação artificial urbana necessária para a segurança pode interferir no descanso, pois penetrando através de vidraças ou frestas nas janelas, invade a escuridão necessária para o sono. É a cidade interferindo na intimidade.

O território do indivíduo deixa de ser adequado quando não é um local confortável. Se na alcova não houver privacidade, se não houver boa acústica, poderá haver desequilíbrio nas relações interpessoais.

O espaço íntimo que cerca o indivíduo e que proporciona limites para os relacionamentos é descrito por Hall (11). Em suas pesquisas, ele descobriu que existem distâncias físicas de dimensões diferentes e que essas distâncias devem ser respeitadas. Qualquer um que sentir seu espaço íntimo (entre 15 e 45 cm) invadido por estranhos, poderá sentir pavor, medo, repulsa ou constrangimento. Quando se é apenas um a mais na multidão ou dentro de um ônibus lotado, o espaço individual é invadido por ruídos urbanos, pelo ar contaminado, por luzes ofuscantes, por pessoas desconhecidas, que provocam a insegurança. A bolha está sendo invadida. Quando a cidade foi bem projetada, os seus serviços são organizados e nem sempre os ônibus vêm lotados, o conforto proporciona sensações de bem-estar. Tudo será transportado, consciente ou inconsciente para a alcova influenciando as relações íntimas devido ao estresse, ao cansaço.

As atividades que ocorrem na alcova são diferentes em cada período da vida do homem. E as necessidades de intimidade e privacidade também são? Para a criança, a alcova está associada ao seu quarto, onde dorme e brinca; para o adolescente, sair da soleira da casa é ser livre para novos rumos e ambos precisam de um porto quando outros caminhos forem incertos. É o que afirma Hertzberger: “não pode haver aventura sem uma base para onde retornar: todo mundo precisa de alguma espécie de ninho para pousar” (12).

Diferente das demais dependências de uma casa, que são de uso comum, o quarto é o ambiente marcado pelas características de seu ocupante, lugar das dores e dos prazeres, um espaço íntimo onde são repostas as energias físicas e emocionais.

No reino animal, uma invasão de territórios é sempre questão de vida ou morte, sobrevive o mais forte. Também para o ser humano, a invasão de territórios é também uma grande agressão. Hoje, devido ao descontrole sócio-econômico, os assaltos vêm alcançando níveis que chegam a ser insuportáveis. Antigamente, quando não se tinha tanto medo de invasores, as portas das casas tinham uma janelinha na parte superior, que funcionava como um elo de ligação com a rua. Atualmente, olhar para a rua dá medo, pois basta um buraquinho para um cano de revólver.

A arquitetura é capaz de mudar comportamentos, interferir nas relações humanas? Se o homem possuir o próprio território, é mais provável que respeitará o espaço dos demais. Quando não o possui, invade, depreda, apropria-se do alheio com violência. A invasão pode ser vista então, não apenas como um caso de território e de arquitetura, mas como um problema sócio-econômico e cultural de amplas dimensões.

Apesar das barreiras físicas, tais como muros, cercas elétricas e porteiros eletrônicos, que marcam limites à invasão, ela ainda ocorre. O espaço territorial privado vem sendo invadido em novos âmbitos e a violência que penetra na intimidade nem sempre parece evidente. Subliminarmente, ela vem através dos meios de comunicação. O celular toca no cinema, no ônibus, na sala de aula, nas conferências, nas livrarias, no supermercado, na praça. Antes, quando as caixas de correspondência ficavam repletas de papéis, tinha-se o trabalho de selecionar e por fora. Agora, o correio eletrônico chega, também, repleto de lixo. A internet permite a entrada de seres estranhos ao ninho: os vírus e os arquivos indesejáveis. O lixo mudou de lugar? Ele está dentro dos instrumentos de trabalho e de lazer e, despesas de luz, energia e tempo para recebê-los e para deletá-los, sem contar com as despesas com manutenção de equipamentos, parecem não existir. Limpar o computador é nova rotina das pessoas.

Se estranhos (pessoas ou e-mails com vírus) invadem territórios, podem ocorrer sensações de desamparo, de impotência, de raiva, de pânico naturais, mas reações imprevisíveis podem ser desencadeadas. Para entrar no território pessoal ou íntimo, tem que haver convite. No contato internauta não é preciso convite.

O espaço íntimo permanece sendo invadido cada vez mais pelo coletivo. Isso não é percebido de forma racional. O homem se estressa e, devido ao seu sofrimento, necessitará ajuda. No consultório médico, ele vai reconhecer que não possui tempo para ser ele mesmo, para sentir a vida, descobre a sensação de ter sido roubado em alegria e vida. Há invasores por todos os lados e isto não deve ser visto como paranóia, mas como um alerta para que se tenha mais cuidado com as barreiras físicas que aprisionam as pessoas e para com a apatia coletiva, que impede que se reivindique espaços mais humanizados. Colocar barreiras protetoras de invasão e que não aprisionem mais ainda os indivíduos é sempre um desafio.

A intimidade de uma casa é um universo demasiado personalizado para albergar personalidade que não a de seu criador (13). Quando o homem possui privacidade é porque ele tem um espaço seu, de expressão própria.

São necessárias demarcações territoriais. Quem tem a chave da porta? Na cidade, a maioria tem a chave, porque um excluído, um marginal nunca tem a chave. Na casa, na alcova, na caverna, será que o morador tem? Será que ele tem o controle? A televisão, que devassa a intimidade dos lares com as coisas da urbe, extravasa sangue e estímulo consumista o tempo todo sobre a mesa de jantar, sobre a sobremesa, sobre o leito. Entrar no espaço íntimo das pessoas, hoje, não é mais uma honra, o indivíduo já nem pede licença, toma conta. Perdeu-se o que ainda é praxe em muitas culturas: a permissão para entrar era honrosa, porta aberta só para os escolhidos e bem-queridos, um bater palmas indicando chegada e um dá licença... Havia outras formas de convivência que não caracterizavam uma perda de domínio, abria-se a porta junto com o coração. Hoje, a intimidade é escancarada e, devido à forma insegura, faz com que o homem se aprisione atrás de portas, grades, porteiros, cercas elétricas, cães, alarmes. Ele se aprisiona para ter intimidade.

Se a arquitetura pode colocar barreiras físicas aos invasores, a informática rompeu tais barreiras e a televisão esgaçou os olhos dos indivíduos. Basta fazer uma conexão virtual para que a cidade invada o espaço pessoal e íntimo. Parece que isto dá liberdade ao indivíduo, mas não. Se ele não se comunicar, estará fora das relações que ocorrem e, se ele se comunicar, estará dentro de uma rede invasora.

Nas áreas íntimas – onde a família se reunia para conversar e fazer lazer – havia um aparelho televisivo que podia proporcionar entretenimento e que comunicava sedutoramente, apesar do acromatismo. Hoje, a televisão não só seduz com luz e cor, mas estimula de forma muito mais sutil. Há poluições visuais, propagandas indutoras de consumo e de conformismo, que deslocam as necessidades básicas para as necessidades criadas: quando o adquirir passa ser feito sem autocrítica, apenas pela imagem que provocou a busca do prazer de ter. Na banca da esquina, o quilo de bananas será considerado caro, enquanto na butique, o prazer é satisfeito e valorizado, independentemente, do preço do produto desejado. Pensar não só no projeto de intimidade, mas na importância e abertura que se dá ao inútil e desagregador, incomoda porque mexe com o prazer, um prazer induzido de possuir. E não se trata apenas de se desligar um botão mecanicamente, trata-se de conviver com o que os outros determinam: viver para consumir. Melhor não pensar, nem criticar. Após o dia de trabalho extenuante, haverá cansaço e o pensar ou o sentir poderá causar desconforto.

O espaço público também está sendo invadido pelo espaço privado. Quantos edifícios em áreas nobres, belos exemplares arquitetônicos do patrimônio histórico viram cortiços e demonstram degradação, não só nos seus revestimentos. As roupas penduradas nas sacadas e janelas degradadas estão no campo visual dos transeuntes: a intimidade exposta para o coletivo.

Quando o lugar para estender roupa foi projetado para onde não há sol, azar o seu! Quando não há espaço, os direitos são desiguais, logo, o usuário vai transgredir porque ele deveria ter este direito: o direito ao sol é universal. Neste caso, as multas e os regulamentos surgem nos edifícios devido a problemas no projeto. Isto não ocorre em Bali, sul da Europa, onde o espaço público e o espaço privado parecem interagir sem conflitos. Cabos de aço são varais repletos de roupas que vão de uma casa de um lado da rua à casa defronte, formando uma passagem colorida e humana.

Se um edifício é como uma cidade, podemos considerar que os corredores são como ruas. A soleira condominial é um limite entre o público e o privado. Hoje, simbolicamente, pode-se considerar que a porta do apartamento é um limite semiprivado? Em uma casa, a criança que fica sentada na soleira com suas pernas para o exterior, demonstra que está segura perto da mãe, mas se aventurará para a rua, ao iniciará sua independência. Início da liberdade para a criança e início do confinamento para os idosos? A arquitetura reservada a eles tem sido, na grande maioria de casos, de segregação. Pouco se pensa nos detalhes arquitetônicos que podem contribuir para a qualidade de sua vida. Eles também necessitam de espaços íntimos, mas há que se ter cuidado para não isolá-los. Uma meia-porta talvez seja uma solução para que ele possa ver o mundo, porque o que ocorre no seu entorno o faz viver, mas ao mesmo tempo, deve impedir que qualquer um se aproprie de seu espaço. Sua alcova não deve ser invadida e é preciso colocar alguns elementos (barras de apoio), remover barreiras (tapetes, degraus, onde ele possa tropeçar), adequar o sistema de iluminação à sua capacidade visual (14) para que ele se desloque com segurança. As barreiras físicas devem protegê-lo e nunca isolá-lo, elas devem impedir a invasão, não a comunicação. Para o idoso, a meia porta já citada, é este intervalo onde ele pode se comunicar com quem passa no corredor e ao mesmo tempo impedir que penetrem na sua área de intimidade.

Barreiras tais como a soleira da porta ou uma meia-porta, citadas acima, reduzem a rigidez entre o íntimo e o privado, são ambíguas – um certo intervalo – acessíveis para ambos os lados, são espaços onde o indivíduo decide também o que quer trocar com o outro (15).

Antes, a proximidade entre as pessoas dependia de seu grau de intimidade. Hoje, o espaço privado já não depende só do ser humano. Estas normas de distância, chamadas proxêmicas, dependem dos tipos de relações entre os indivíduos e o ambiente em que se encontram. Por exemplo: apesar de não se sentir confortável dentro de um ônibus, suporta-se a proximidade com a pessoa ao lado porque isto não caracteriza intimidade. Mas esta mesma proximidade em um quarto ou na rua poderá desencadear sensações bem diferentes. No quarto há intimidade; na rua, pode ser ameaçador.

No Seminário Internacional Psicologia e Projeto do Ambiente Construído (16) um dos trabalhos apresentados versou acerca da intimidade exposta dos moradores de rua (17). As pesquisadoras identificaram de que forma eles ocupam o território urbano. Verificaram que os que têm mais estrutura emocional, criam a casa com ambientes. Geralmente desempregados, eles demarcam a parte íntima da casa – o local de dormir – com caixas de papelão ou outra sucata. Cobrem as suas fezes com papelão e aquele espaço é o seu sanitário. Há certa organização, mesmo a céu aberto, sem paredes. A casa pode estar embaixo de um viaduto ou perto de um muro de um terreno baldio. Diferente desta, é a casa móvel, transportada de lá para cá num carrinho enfeitado com pneus, rodas, uma luminária velha pendurada... A outra moradia é sugerida por elementos urbanos. Encostam-se ou deitam-se próximo a postes ou a uma superfície qualquer que lhes dê a sensação de estabilidade. Por último, quando a estrutura emocional deixa de existir e todo lugar é íntimo, qualquer lugar é um lugar para morrer: a mortalha – um último invólucro – é quando o indivíduo dorme na calçada. Ele nem tenta se proteger dos transeuntes e, indiferente ao clima, cobre-se de panos, trapos ou cobertores e se entrega ao coletivo. Esse trabalho permitiu concluir que a saúde mental está relacionada à capacidade, que o indivíduo tem, de administrar seu território, o que é demonstrado na ocupação do espaço urbano, na sua arquitetura urbana.

A intimidade dos excluídos, como no relato acima, é jogada nos espaços urbanos e causa desconforto e insegurança, incomoda. Mas não parece motivar transformações devido ao medo. Tais grupos de desagregados, ou não tem mais nada ou quase nada têm. Perderam a dignidade, o direito ao espaço próprio, agregador e abrigador do seu eu. Quando o indivíduo não tem mais o que perder, ele pode ser violento e ao reavivar o medo coletivo, ele se torna poderoso: é quando a cidade deixa de ser do cidadão, que ao se apavorar, fecha-se mais e mais na sua intimidade.

A cada canto, uma massa de desempregados e doentes, alcoolistas e pedintes, crianças e mulheres estão a pedir dinheiro. Fazem parte da cidade, mas a sociedade os exclui. São tantos a pedir e tal a impotência do cidadão, que quando ele chega em casa após um dia de trabalho, caso seu filho lhe pedir dinheiro, dará um discurso. É parte da cidade entrando na intimidade do indivíduo como um furacão, sem que ele se dê conta.

Invasão de privacidade também ocorre como forma de ganhar dinheiro. A intimidade das pessoas públicas é devassada e jogada no coletivo através da imprensa. Fotografar o quarto de uma celebridade? Veja-se, nas revistas, a intimidade das pessoas célebres que deleita os indivíduos. Esta é buscada, ao contrário da intimidade dos miseráveis que é atirada para a coletividade. Mesmo que não se queira vê-la, ela está ali. Na década de setenta, numa viagem de turismo a Buenos Aires, não se via miseráveis, nem malocas. Tapumes fechavam quadras inteiras escondendo favelas. Era para visitantes não verem. Era o regime militar ditatorial escondendo suas feridas, outra forma da cidade invadir os homens nos seus sentimentos profundos, impedindo a solidariedade, a humanidade, a participação de todos.

Quando os regulamentos condominiais impedem que domésticas, porteiros e zeladores utilizem o mesmo elevador que seus patrões, exerce-se o direito de intimidade ou ocorre discriminação social? Tal conduta pode apenas estar demonstrando que não há vinculação afetiva entre ambos e, portanto não há motivo para compartilhar o mesmo espaço. Pode ser apenas uma proposta funcional também. Propor elevadores para separar distintas classes sociais, favorece a discriminação ou organiza diferentes atividades? A arquitetura é capaz de mudar comportamentos, interferir nas relações humanas? Não se trata de uma apologia da desagregação social ou de dar limite aos excluídos, mas de demonstrar que nem sempre o anti-social, como é dito, é de foro consciente do cliente ou do projetista. Ao bloquear caminhos, impedir acessos, ela pode interferir nas relações entre as pessoas, pois, devido às barreiras físicas, impedirá que novos e variados vínculos se estabeleçam.

Conclusão

Com as grandes alterações nas cidades, com a informática reduzindo distâncias entre as pessoas (e também, invadindo espaços privados), poder-se-ia afirmar que o ser humano possui alcova? Se a relação existente entre o espaço íntimo e o coletivo é dinâmica e interage de forma biunívoca, ainda existe privacidade, um território individual? Onde ele ainda não foi invadido pelo coletivo e vice-versa? A alcova está na cidade tanto quanto a cidade está na alcova? Seria apenas devido ao dinamismo da cidade e das relações sociais?

notas

1
Este trabalho resultou de uma palestra proferida no GEA – Grupo de Estudos Psicanalíticos, Porto Alegre RS.

2
Mérito – Enciclopédia Brasileira. São Paulo, Mérito, 1957.

3
FEDRIZZI, Beatriz. Improving Public Schoolyards in Porto Alegre, Brazil. Swedish University of Agricultural Sciences, Alnarp; Doctoral thesis, 1997.

4
Pierre Jean. Apud BACHELAR, Gaston. A poética do espaço. São Paulo, Martins Fontes, 1990, p. 6.

5Espírito do lugar.

6
”(...) é o nome que se dá à conseqüência formal de uma série de determinantes, tais como o programa do edifício, a topografia, a orientação, o sistema estrutural adotado, as condições locais, o clima, a verba disponível, a legislação, mas principalmente a intenção plástica do arquiteto”. CORONA, Eduardo; LEMOS, Carlos A. C. Dicionário da arquitetura brasileira. São Paulo, Edart, 1972.

7
Conjunto de processos avaliativos, que envolve desde a legislação pertinente, o processo projetual e construtivo até as modificações feitas no decorrer da vida útil de um dado ambiente, os níveis de conforto, a funcionalidade, a segurança, a acessibilidade, o desempenho dos materiais. O que a diferencia de um estudo do ambiente é a participação do usuário no processo de pesquisa para que se reconheça o seu grau de satisfação.

8
GUIDUCCI, Roberto. A cidade dos cidadãos. São Paulo: Brasiliense, 1980.

9
OKAMOTO, Jun. Percepção ambiental e comportamento. São Paulo, Ipsis, 1997.

10
Cinestesia, ou sentido pelo qual se percebe a posição de possíveis movimentos dos membros (e do corpo como um todo) de um indivíduo em relação ao espaço que poderá vir a ocupar.

11
HALL, Edward T. A dimensão oculta. Lisboa, Relógio d’água, 1986.

12
HERTZBERGER, Herman. Lições de arquitetura. São Paulo, Martins Fontes, 1996, p. 28.

13
GALFETTI, Gustau Gili. Minha casa, meu paraíso. Barcelona, Gustavo Gilli, 1999.

14
COSTI, Marilice. A influência da luz e da cor em ambientes de espera e corredores hospitalares. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2001.

15
HERTZBERGER, Herman. Op. Cit.

16
Seminário Internacional Psicologia e Projeto do Ambiente Construído, Rio de Janeiro, ago. 2000.

17
SANTOS, Ana Lúcia Vieira dos; DUARTE, Cristiane Rose. Usos, percepção e transformações do espaço urbano por populações de rua: um estudo de caso no Rio de Janeiro. Anais... Seminário Internacional Psicologia e Projeto do Ambiente Construído. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, PROARQ/FAU, 23-25 ago. 2000.

sobre o autor

Marilice Costi é professora da PUCRS – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, mestre em Arquitetura e profissional atuante no mercado de trabalho.

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