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architectourism ISSN 1982-9930

Hotel Tambaú, João Pessoa PB, arquiteto Sérgio Bernardes. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Após visita ocorrida em novembro de 2019, o arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo comenta suas impressões sobre a Casa da Cascata, de Frank Lloyd Wright.

english
After a visit that took place in November 2019, the architect Paulo Ormindo de Azevedo comments on his impressions about the Casa da Cascaat, by Frank Lloyd Wright.


how to quote

AZEVEDO, Paulo Ormindo de. A Casa Kaufmann de Frank Lloyd Wright. O desafio à gravidade encima de uma cascata. Arquiteturismo, São Paulo, ano 13, n. 154-155.01, Vitruvius, jan. 2020 <https://www.agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/13.154-155/7612>.


Não posso dizer que não a conhecia. Já havia visto suas plantas, fotos e lido descrições e comentários, mas ao embarcar nela, embalado pelo marulho das águas da cascata, tive um alumbramento e já não reconhecia mais nada. Normalmente quando nos aproximamos de uma nave a vemos crescer à nossa frente, e era assim que a via em fotografias e vídeos. Mas naquela aproximação real era o contrario, ela se revelava aos poucos, através de uma cortina de arvores, da chaminé, que fumegava azul, para o casco. Sua rampa de acesso não subia, senão descia, para minha surpresa.

Cruzei o rio por uma ponte e embarquei. Sua entrada era pouco mais que um portaló, que se continuava por um caminho estreito e escuro com paredes de pedra, que mais me parecia uma gruta, que uma “gaiola”, como as do São Francisco e do Mississipi. Impressão que se confirmou ao subir alguns degraus e aflorar num grande salão com piso e paredes de pedra. Eram evidentes os sinais de que ali já havia morado alguém, como uma grande mesa com cadeiras de três patas, as únicas que se equilibravam naquele piso irregular, e arcas de madeira muito elaboradas. No pé de uma das paredes havia um braseiro para as noites de frio e sobre ele um caldeirão pendular para o preparo de caldos e água quente. Nas laterais do salão havia pequenos terraços, onde se podia repirar o ar puro da mata.

Casa da Cascata (Kaufmann House), Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Foto / Photo Paulo Ormindo de Azevedo

Como toda gruta, descobri que havia água no fundo, onde se podia fazer o banho e até nadar e não foi difícil encontrar a descida. Iludi-me ao pensar que iria encontrar uma barca flutuando num rio, mas na verdade estava percorrendo uma lapa encantada. Só não vi estalactites.

Casa da Cascata (Kaufmann House), Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Foto / Photo Paulo Ormindo de Azevedo

Acompanhado de outros visitantes e guia, para não nos perdermos, subimos por um túnel estreito e escuro dessa gruta labiríntica para encontrar outro salão, bem menor, de uns 20 m². Esse salão se abria para um enorme terraço, três vezes maior que ele, que como uma língua parecia querer lamber o outro lado do vale, com sua densa mata por entre afloramentos de rocha. Aproximei-me cautelosamente de seu parapeito e restaurei a ilusão que estava na torre de uma barcaça sobre outros conveses que se cruzavam com o meu. Mais abaixo corria um rio. Percebi, porém, que aquela barca de pedra não flutuava sobre a água senão pairava perigosamente no ar, desafiando a gravidade. Voltei correndo para a gruta.

Casa da Cascata (Kaufmann House), Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Foto / Photo Paulo Ormindo de Azevedo

Quando me recuperei do ofuscamento da visão, assumi que não tinha ido ali conhecer uma “gaiola” ou uma lapa, mas a Casa da Cascata, obra-prima de Frank Lloyd Wright. A expressão inglesa Fallingwater, como é conhecida a mansão, traduz bem o fluxo espacial dessa casa. Não o fluir tranquilo de um rio de planície, senão a agitação de uma cascata, com sístoles e diálises espaciais, que refletem o temperamento de seu projetista. Continuamos subindo a cascata em piracema até chegar ao quinto andar, que poderia ser considerado o sexto, ou pavilhão de hospedes e garagens, construído dois anos depois de sua inauguração, e ter uma visão da casa aninhada no vale. A garagem, atual auditório, não havia sido projetada originalmente e não ficaria na chegada da casa, senão no seu fundo e distante.

Casa da Cascata (Kaufmann House), Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Foto / Photo Paulo Ormindo de Azevedo

Como arquiteto passei a curtir o projeto. Nada ali parecia ocorrer por acaso. Wright optou por uma obra marcada por linhas horizontais, em contraste com a floresta de troncos verticais pouco desgalhados. Contraste também entre os balcões lisos de concreto ocre e os pilares rústicos escuros de pedra sedimentar local. Sim, toda estrutura vertical da casa é constituída de alvenarias de pedra de 60 cm de espessura. Apenas dois pilares de concreto sustentam o primeiro e o segundo andares com incríveis balanços de 5,5 m de vão, graças as vigas invertidas dos parapeitos dos terraços. Aqueles dois pilares são o fiel da balança formada pelos pisos da casa e dos terraços.

Casa da Cascata (Kaufmann House), planta do segundo pavimento, Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Imagem divulgação [Website oficial Fallingwater House]

O arquiteto, então com 70 anos, integrou organicamente a casa ao sitio natural. Seu segundo andar está ancorado por um pente de vigas à encosta pétrea do vale e seu terraço do fundo se apoia sobre um afloramento de rocha, o mesmo material que ele utiliza nas alvenarias estruturais. Além da pedra e do concreto, utilizado nas lajes e cobertura da mansão, ele utiliza muito o vidro, em belos caixilhos de ferro pintados de zarcão. Mas para dar continuidade visual do interior com o exterior, ele elimina os caixilhos no encontro do vidro com a pedra. Wright detestava os cantos e os eliminava com esquadrias em ângulo que se abriam com folhas sem caixilhos.

Casa da Cascata (Kaufmann House), Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Foto / Photo Paulo Ormindo de Azevedo

Funcionalmente ele privilegiou a vida ao ar livre em terraços de onde se podia apreciar a paisagem e a vida silvestre. Os quartos são relativamente pequenos para uma mansão daquelas dimensões. O do casal Kaufmann tinha apenas 20 m² e seu terraço 60m². O vestir, que seria transformado no quarto do marido e o estúdio, no terceiro andar, que seria usado como quarto do filho medem 15 m². Eles estão todos na mesma prumada do living para serem aquecidos pela chaminé da lareira. O primitivo quarto de hospedes tinha apenas 13 m², mas todos eram suítes. Resumindo, os quartos, o vestir e o estúdio totalizam 65 m² sem contar os sanitários e circulações contra 200 m² de terraços. Só o living, com 90 m², é proporcional ao tamanho da casa.

Casa da Cascata (Kaufmann House), Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Foto / Photo Paulo Ormindo de Azevedo

Outra preocupação do arquiteto era com a iluminação. Todas as janelas têm marquises para evitar a penetração direta do sol e os terraços são em parte sombreados por pérgulas. Elas eram como as abas de seu inseparável chapéu. A iluminação dos interiores é sempre discreta, indireta, a partir do topo dos armários, que não chegam ao teto. Só o living, por sua grande dimensão, tem iluminação central no teto. Wright não era apenas arquiteto, era também paisagista, decorador, designer de móveis, luminárias, tapetes, cortinas e mentor de seus estagiários. Wright foi especialmente professor, que mesmo 60 anos depois de morto, continua a nos ensinar o que é fazer boa arquitetura.

Casa da Cascata (Kaufmann House), Mill Run, Estados Unidos, 1935. Arquiteto Frank Lloyd Wright
Foto / Photo Paulo Ormindo de Azevedo

PS – Segundo Lúcio Costa, aqueles balcões se inspiraram numa casa modernista de Gregori Waschavschik no Rio de Janeiro. Wright esteve no Rio em 1931, como membro da comissão julgadora do concurso internacional para construção do Farol de Colombo, em Santo Domingo, e ele com Lúcio e o autor do projeto foram a sua badalada inauguração, na rua Toneleiro 138, em Copacabana. Wright teria demonstrado admiração pela racionalidade da casa e em especial pelos balcões que tinham vigas invertidas como parapeitos e que ultrapassavam lateralmente o corpo da casa. Em 1935 ele adotaria solução semelhante na Casa da Cascata, com muito mais arrojo. Verdade ou não, fica aqui o registro (1).

Casa William Nordschild, Rio de Janeiro, Brasil, 1930-1931. Arquiteto Gregori Warchavchik
Foto divulgação

nota

1
IRIGOYEN, Adriana. Wright e Artigas: duas viagens. São Paulo, Ateliê Editorial, 2002, p. 42-48.

sobre o autor

Paulo Ormindo de Azevedo é arquiteto, com doutorado em restauração de monumentos e locais pela Universidade de Roma, “La Sapienza”, e professor titular da Universidade Federal da Bahia, Brasil. Autor de projetos, livros e artigos sobre arquitetura e urbanismo, visitou Fallingwater pela primeira vez em novembro passado.

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